23 de Outubro de 2008

O profissional “Um ano júnior, dois anos pleno e trinta e dois anos sênior”!?

Arquivado sob: Gestão de Pessoas — marco @ 21:56

O mercado de TI no Brasil, apesar da crise que se anuncia, está muito aquecido. Este aquecimento, como qualquer processo econômico, gera problemas de oferta e demanda. Uma alta oferta gera problemas diversos de déficit na demanda. A Gazeta Mercantil, em uma pesquisa de 2006, apontou um déficit de 50 mil profissionais no mercado de TI. Uma outra pesquisa, do portal Convergência Digital da Terra, diz que o Brasil acumulará um déficit de 150 mil profissionais até 2011. A Business Week, renomada revista americana, mostra que a profissão de Engenheiro de Software é a segunda posição do mercado de trabalho dentre as 20 profissões à prova de recessão.

Neste aquecido mercado, começamos a observar um estranho fenômeno, que é da presumida senioridade de profissionais de TI. Em termos mais simples, observamos profissionais que sem nenhuma ou pouquíssima experiência se assumem a seus gerentes e pares como plenos ou mesmos sêniores. Um padrão típico que já observei várias vezes poderia ser resumido da seguinte forma:

  • O profissional faz um estágio em uma empresa de TI. No estágio ele “aprende” um framework como por exemplo o Hibernate e “domina” uma ferramenta como por exemplo o Visual Studio.
  • Após o aprendizado do estágio, o profissional consegue o emprego e trabalha em seu primeiro projeto. Após um ano e algumas experiências vividas com um mesmo framework em um ou dois projetos, o profissional percebe que domina muito bem a ferramenta. Como ele passa a coordenar novos estágiários, que chegam sem nenhum conhecimento, ele de repente se percebe pleno. Pleno de conhecimento, pleno de domínio e pleno de influência. Para tornar a coisa pior, os seus gerentes, ingenuamente, começam a dizer a todos que ele é pleno. E como uma mentira dita em voz alta ao vento dez vezes se torna verdade, o profissional se torna pleno!
  • Um profissional pleno almeja novas posições financeiras. Muitas vezes o profissional não encontra isso na empresa que o empregou. É o momento de ir para outra empresa, onde ele já entra como pleno, devido a sua “experiência” de coordenação de estagiários e novatos e do seu domínio sintático de ferramentas.
  • No seu trabalho “pleno”, o profissional vive boas experiências em projetos. Ele lida com pressões de tempo, pressões da sua gerência, coordena pessoas que se dizem plenos e aprende novas ferramentas e novos frameworks. E eis que depois de algum tempo e mais projetos, ele percebe que é a pessoa que possui mais conhecimento no seu time. Neste momento, a síndrome do máximo local o atormenta. Ele é o melhor jogador de futebol da sua rua e então decide que é sênior.
  • Este novo profissional sênior busca, novamente, posições maiores e maiores posições financeiras. Muitas vezes ele não encontra isso na empresa que o contratou como pleno. Novamente o seu CV está na rua e em breve ele consegue uma nova posição como sênior. Ele tem três ou quatro anos de experiência de mercado! Nos próximos 32 anos anos da sua vida profissional ele será sênior!

Este parece ser um sintoma mais presente na geração Y (pessoas que nasceram depois dos anos 70) do que na geração X (seus antecessores), mas isso é pura especulação minha.

O processo evolutivo da senioridade!

Júniores e Sêniores

Mas o que é um profissional pleno ou um profissional sênior? Sem dúvida é difícil definir isso e eu claramente não tenho competência para isso. O que percebo, entretanto, é que habilidades e competências diversas devem estar presentes. Uma vasta experiência (medida em milhares de horas de projeto), um grande número de projetos entregues com sucesso (medido em dezenas), uma vasta formação acadêmica (medido no número de pós-graduações e cursos de aperfeiçoamentos), um forte quociente emocional e um reconhecimento sólido do mercado são atributos essenciais. Arrisco-me a dizer, entretanto, que talvez o atributo mais importante seja a humildade, afinal de contas, para reconhecer as próprias limitações e aprender continuamente.

7 Comentários »

  1. Faz algum tempo, resolvi assumir alguns parâmetros (e posso estar redondamente enganado). ‘Júnior’, não resta dúvida, é o debutante na carreira e precisa de apoio. A chave, para mim, está no ‘pleno’. O ‘pleno’ é aquele que está apto a desenvolver suas atividades *plenamente*, sem necessidade de supervisão; ele precisa apenas de diretrizes (obviamente espera-se que esteja dentro do devido contexto gerencial). E ’sênior’ é aquele que exerceu plenamente sua função por uns bons anos - para ele, é recorrente a maior parte dos problemas que um pleno resolve e, por isso, tende a resolvê-os mais rapidamente.

    O que realmente acho lamentável é o fato das pessoas atingirem rapidamente seus objetivos financeiros e julgarem que isto é motivo para a interrupção de seu crescimento. Então, não se acumulam 32 anos de experiência - repete-se a *mesma* experiência por 32 anos! Este tempo todo fazendo a mesma coisa e caminhando do pseudo-sênior para medíocre.

    Excelente post!

    Comentário de Eros Viggiano — 24 de Outubro de 2008 @ 18:40

  2. Complementando o post com um comentário de um amigo meu (Alcebíades), a senioridade pode ser medida também através de um conjunto relevante de casos de fracasso inéditos! Isso é sem dúvida bem interessante, dado que os fracassos nos ensinam mais que os sucessos.

    Thomas Edison disse uma vez ao falhar na décima milésima vez do experimento que levaria à invenção da lâmpada “Descobri mais uma forma de não inventar uma lâmpada elétrica!!” :)

    Comentário de marco — 27 de Outubro de 2008 @ 10:04

  3. Este também é um ponto que questiono bastante. Se olharmos as demais áreas, a engenharia, por exemplo, vemos que este conceito é bem esclarecido. Não se encontra fácil, pra não dizer impossível, um engenheiro civil sênior com menos de 30 anos. Não estou afirmando que idade é requisito, apesar de muitas vezes denotar experiência. Hoje quando se fala em sênior, em nossa área, a primeira coisa que nos vêm à cabeça é o simples fato que aquele “cara” ganha mais, quando na verdade deveria ser aquele “cara” é a quem devo pedir conselhos, e que provavelmente já passou pelo problema que estou passando. Esta é uma questão que, na minha opinião, deve ser solucionada pelos próprios empregadores. Discordo ao se culpar somente os profissionais para este fenômeno. As empresas também estão vendendo seus profissionais como sênior. Na verdade, como você mesmo disse, grande parte dos casos é fomentada por um acréscimo salarial, e na minha opinião também por escassez de mão de obra qualificada. Neste caso aplica-se aquele velha frase “a fome com a vontade de comer”. O empregador não quer pagar o quanto um sênior (de verdade) deveria receber, e o pleno que nunca vê seus reajuste salariais e as devidas valorizações conforme a famosa lei da oferta e procura acontecerem.

    Comentário de Mateus — 27 de Outubro de 2008 @ 22:41

  4. Marco Aurélio,

    seu artigo me fez lembrar do texto produzido pelo Ricardo Ferreira no Pangea (http://pangeanet.org/group/arquitetosdesoftware/forum/topics/2351246:Topic:1766). Acontece que agora ser um “Analista Sênior” não é o limite, visto que agora ele pode ser “magicamente promovido” a “arquiteto de sistemas”. :-)

    Acho que esta discussão só acabaria caso tivessemos uma profissão regulamentada, com um conselho ou entidade de classe (exemplos: OAB, CREA, CRM) que nos representasse.

    Digo mais, do mesmo modo que para ser um médico um profissional deve ter estudado medicina e para ser advogado deve necessáriamente passar na prova da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), um profissional da nossa área deveria ser submetido aos mesmos critérios dessas outras ocupações.

    Eu não posso assinar uma obra de um prédio, pois não tenho nem habilidade/conhecimento/técnica/reconhecimento. Mesmo que tivesse isso tudo, não teria meu registro no CREA.

    Em informática, no entanto, é diferente: um profissional “Sênior”, às vezes, não é formado na área (as vezes é formado em administração, engenharia, psicologia e etc) ou nem mesmo possui formação. E por mais “non sense” que seja, ele pode praticar a profissão como todos aqueles que investiram nisso.

    Claro que conheço vários profissionais formados em outros cursos que são excelentes analistas de sistemas. De maneira análoga, conheço pessoas formadas em ciência da computação que devem ter terminado o curso através de intervenção divina (ou outra força do mundo metafísico)!! Isso não está em discussão aqui!

    Eu poderia começar a falar sobre formas de contratação (CLT full, CLT COTA, CLT Flex, PJ, cooperativa) para corroborar ainda mais com minha teoria, mas isso é assunto para outro tópico.

    Enquanto essa regulamentação não acontece, seremos sempre “o pessoal de TI”, cujos critérios de classificação,de remuneração e benefícios serão dependentes de empregadores menos ou mais estruturados/inescrupulosos/aproveitadores. :-(

    Comentário de Clayton — 6 de Novembro de 2008 @ 15:43

  5. Concordo com o Mateus. Vejo isso acontecendo muito aqui em SP. Muitas “consultorias” famosas, conceituadas e de importância nacional, enganam seus clientes “vendendo” mão de obra junior como pleno e até mesmo sênior e pagando para esses recursos como junior. O cliente por sua vez não possúi mecanismos para medir a qualidade dos produtos e serviços entregues acabam pagando o preço.

    Comentário de Daibert — 10 de Novembro de 2008 @ 01:07

  6. […] Pessoas: O profissional “Um ano júnior, dois anos pleno e trinta e dois anos sênior”!? […]

    Pingback de Marco Mendes´s Blog » Artigos de Engenharia de Software - 2008 — 31 de Dezembro de 2008 @ 00:50

  7. […] Um artigo muito interessante chamado “O profissional “Um ano júnior, dois anos pleno e trinta e dois anos sênior”!?” sobre isso, foi publicado pelo meu amigo e um dos grandes nomes da Engenharia de Software, Marco Mendes, um dos maiores profissionais com quem já trabalhei, onde ele expõe com firmeza o que as pessoas de hoje fazem para ganhar o “salário dos sonhos” antes de ser o “profissional dos sonhos”. […]

    Pingback de The Bug Bang Theory » Blog Archive » Experiência – Quantidade ou Qualidade? — 21 de Abril de 2010 @ 18:31

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